Contos

Contos e histórias que reflitam a alegria cristã.

O poder de um sorriso

O homem sentia-se execrado. Todos naquele lugar falavam dele como de um inimigo, um caçador implacável, lobo em pele de cordeiro. Muitos deles nem seuqer o tinham visto. Nenhum deles o conhecia. Mas era assim que o imaginavam. Não importa de onde tiravam essas idéias, o imaginavam assim e pronto.

Cada palavra e pensamento chegava até o homem como flechas lançadas de longe. Como nos filmes ele via as flechas cairem sobre sua cabeça, vindas sabe lá de onde. Ele também não os conhecia. Nunca os tinha visto. Conhecia somente as flechas. E como doiam. Mas não conseguia encolerizar-se. Nunca sentiu raiva de ninguém. Na infância perdeu sua casa, não sentiu raiva. Foi maltratado na escola, hoje chamariam de bulling, mas também não teve raiva dos seus colegas. Teve seu pai assassinado e teve dó do assassino. Nunca conseguiu odiar ninguém. Não iria começar agora.

Chegou o dia. O homem foi convidado para ir àquele lugar. Sabia que encontraria os arqueiros. Não teve ódio. A vingança nem sequer se pronunciou. Mas por instante teve medo. Como irão me receber? Mas tinha bons escudos e uma armadura reluzente, além de pés bem calçados e uma bela espada nas mãos. Foi ao encontro deles.

Na porta, recebendo todos que chegavam, um largo sorriso. Não um sorriso como de porteiro, engessado e obrigado pela função, mas um sorriso sincero, de alguém feliz e disposto a transmitir sua felicidade. Um sorriso o recebeu e abraçou-lhe, envolveu-lhe. Não viu outros sorrisos sequer semelhantes, mas nem precisava, bastava-lhe aquele sorriso que lhe acompanhou o tempo inteiro.

Mal percebeu os olhares acusadores, os cochichos desconfiados, iluminado por aquele sorriso deixou-se conhecer por todos. Quem o quis sondar pode sondar. abriu a guarda, não se sentia mais ameaçado, estava no meio de um sorriso, nenhum mal lhe alcançaria ali. Olharam, examinaram, procuraram o ziper da fantasia e o elástico da máscara. Perberam que não havia máscara, nem tampouco fantasia. E as flechas pararam.

Cada vez que o homem retorna a este lugar o sorriso está lá, mas agora ele reflete-se no seu rosto. Outros sorrisos passaram a surgir, temporários, dependentes, frágeis, necessitados de algum motivo para surgirem, diferentes do sorriso que o recebeu e permanece perenemente a recebê-lo.

Categorias: Contos | Tags: | Deixe um comentário

Alô, Maria?

O homem não tinha muito dinheiro, nem muita comida, ou muitas coisas suas. Não tinha um lugar pra ficar, só as ruas da cidade por onde andava tranquilo, a marquize, as estrelas e um sorriso no rosto.

Um sorriso meio despretensioso, de quem simplesmente quer sorrir, de quem não tem motivos para não sorrir. Está bem como está. Tem certeza de que está e estará sempre bem e a cada dia melhor. Sorriso de quem consegue ver o belo ao seu redor e encantar-se com isso.

Todo dia era assim, acordar com o nascer do sol, antes do pessoal da loja chegar, juntar suas poucas coisas, limpar a calçada e sair, ninguém precisava saber que ele esteve ali. Daí às ruas, um trocado aqui, um papo ali, para-brisas, vitrines, quase invisível no meio da multidão. Descobriu que sabia fazer malabares. Divertia amigos e desconhecidos. Seguia dia a dentro tentando não incomodar, reconhecer alguém, causar sorrisos e juntar trocados.

Toda noite reunia-se com os amigos para partilhar o soldo do dia, contar os causos do dia, ouvir o passado alheio e procurar o próprio. Sempre tinha sopa. Sempre tinha café quentinho. Quase sempre tinha pão. Dias de festa tinha leite. Não sabia ao certo se tinha leite por ser festa ou era festa por ter leite. Praça sempre cheia e boas risadas enchiam a noite.

“- Preciso ir agora amigos” Sempre saia às 19:00 horas, ia ao orelhão.
“- Pra quem ele liga toda noite?”
“- Liga pra filha dele” e riam dele.

Não sabia seu nome, seu endereço, sua origem, sua infância, sabia que tinha uma família, uma filha, que o nome dela era Maria. Pensava que trabalharia durante o dia. Provavelmente teria filhos. Procurava por ele. E, desde que encontrou uma velha lista telefônica, ligava todas as noites para alguma Maria da lista, qualquer Maria. Todas as noites ele ligava e dizia o mesmo “alô, Maria?” e aguardava em silêncio.

“- Alô, Maria?”

“- Alô, pai?”

Categorias: Contos | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.