O poder de um sorriso

O homem sentia-se execrado. Todos naquele lugar falavam dele como de um inimigo, um caçador implacável, lobo em pele de cordeiro. Muitos deles nem seuqer o tinham visto. Nenhum deles o conhecia. Mas era assim que o imaginavam. Não importa de onde tiravam essas idéias, o imaginavam assim e pronto.

Cada palavra e pensamento chegava até o homem como flechas lançadas de longe. Como nos filmes ele via as flechas cairem sobre sua cabeça, vindas sabe lá de onde. Ele também não os conhecia. Nunca os tinha visto. Conhecia somente as flechas. E como doiam. Mas não conseguia encolerizar-se. Nunca sentiu raiva de ninguém. Na infância perdeu sua casa, não sentiu raiva. Foi maltratado na escola, hoje chamariam de bulling, mas também não teve raiva dos seus colegas. Teve seu pai assassinado e teve dó do assassino. Nunca conseguiu odiar ninguém. Não iria começar agora.

Chegou o dia. O homem foi convidado para ir àquele lugar. Sabia que encontraria os arqueiros. Não teve ódio. A vingança nem sequer se pronunciou. Mas por instante teve medo. Como irão me receber? Mas tinha bons escudos e uma armadura reluzente, além de pés bem calçados e uma bela espada nas mãos. Foi ao encontro deles.

Na porta, recebendo todos que chegavam, um largo sorriso. Não um sorriso como de porteiro, engessado e obrigado pela função, mas um sorriso sincero, de alguém feliz e disposto a transmitir sua felicidade. Um sorriso o recebeu e abraçou-lhe, envolveu-lhe. Não viu outros sorrisos sequer semelhantes, mas nem precisava, bastava-lhe aquele sorriso que lhe acompanhou o tempo inteiro.

Mal percebeu os olhares acusadores, os cochichos desconfiados, iluminado por aquele sorriso deixou-se conhecer por todos. Quem o quis sondar pode sondar. abriu a guarda, não se sentia mais ameaçado, estava no meio de um sorriso, nenhum mal lhe alcançaria ali. Olharam, examinaram, procuraram o ziper da fantasia e o elástico da máscara. Perberam que não havia máscara, nem tampouco fantasia. E as flechas pararam.

Cada vez que o homem retorna a este lugar o sorriso está lá, mas agora ele reflete-se no seu rosto. Outros sorrisos passaram a surgir, temporários, dependentes, frágeis, necessitados de algum motivo para surgirem, diferentes do sorriso que o recebeu e permanece perenemente a recebê-lo.

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